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Cineasta de MS faz homenagem para Geraldo Roca com artigo inédito

São mais de 30 anos de amizade, que agora ficam nas lembranças.Na mesma semana da morte, ele pegou papel e rascunhou palavras.

Bebida deixada por amigo ainda está no congelador (Foto: Graziela Rezende/G1 MS)

A bebida preferida do amigo ainda está guardada no congelador. Na outra parte da casa, estão arquivos de longa metragens inéditos, gravados pelo músico Geraldo Roca. São mais de 30 anos de amizade, que agora ficam nas lembranças e a única maneira de exteriorizar este sentimento ocorreu com a homenagem do jornalista, cineasta e mestre em comunicação Cândido Alberto da Fonseca, de 60 anos. Um artigo inédito, uma relíquia da saudade.

Na mesma semana da morte, ele pegou o papel em branco e rascunhou palavras. Nós nos conhecemos aqui em Campo Grande, nas gandaias da vida dos anos 80. Ele veio do Leblon, bairro nobre do Rio de Janeiro. Na época, eu produzia uma peça com Paulo Simões e um musical com Geraldo Espíndola, disse.

Ao receber um prêmio pelo seu trabalho, Cândido conta que Geraldo assistiu ao evento e fez um comentário.

Ele me chamou e disse que eu me envolveria com o cinema. Em seguida, comentou que também queria gravar o musical Coisas de Sonhar, mas na versão dele. Roca era talentoso e um amigo caro. Um caro amigo, uma pessoa muito especial para mim, comentou.

De maneira natural, o jornalista fala que a amizade foi acontecendo. Nós tínhamos aqueles amigos temporários, que sumiam e depois apareciam. Mas ele dizia muito que gostava de conversar comigo, pelo fato de lermos bastante e discutir sobre teorias, delírios. A coisa então foi espontânea e as conversas se estendiam nos bares. Então acompanhei a vida dele, os relacionamentos, relembrou.

Em dezembro de 2015, o amigo faleceu. Cândido ainda demora para abrir as pastas do computador, com fotos de Roca. Ele finge estar confuso, mas sabe exatamente onde elas estão e o que teme é sofrer ainda mais com a dolorosa perda. Ele era um gênio, um artista sem tamanho. Antes de divulgar os trabalhos, discutia inúmeras vezes as suas fotos e canções, comentou.

OG1 teve acesso a músicas e o artigo inédito. Veja na íntegra:

O morto e a morte. Sobre a subida repentina de Geraldo Roca.

Verás que todo es mentiraVerás que nada es amorQue al mundo nada le importaYira... yira...Aunque te quiebre la vida,Aunque te muerda un dolor,No esperes nunca una ayuda,Ni una mano, ni un favor.( Enrique Santos Discepolo)

Sobre eles aquilo que se diz sobre o papel em branco. O papel em branco aceita tudo. Sobre a morte a literatura se encarrega, mas sobre o morto o que permanece são as versões. Com fatos lógicos... Vamos falar sobre isso.

Meu amigo Geraldo Roca desistiu. Já fazia algum tempo que aquela figura genial e difícil atravessava a vida sem procurar por aquilo que se preparou sempre. Ser um astro pop. Nasceu no Rio de Janeiro, mas seu sangue vertia o rio Paraguai, mas cometeu um crime imperdoável para as terras planas do pantanal. Educou-se.

Não nas lidas do lucro e na trilha do gado ou do trator. Uma causa natural. Em vez disso mergulhou  nas veias da sensibilidade. Deu-se mal porque bebeu dos vícios mundanos e do rigor estético onde pra sair música, nem a fórceps. Quando fluía vinha divina e forte. Mas nas suas relações era o Nhô Nhô , dono da bola, o “Seo Jacarandá”. Ai era o rei do gado, dono do latifúndio. Inquestionável. Foi nesse clima que apareceu morto de uma morte anunciada. Não matou para ser, mas se matou por ver que não seria. Mas o pior é que era. Dá pra entender?

Só posso dizer que é triste, muito triste. Ele avisou. Isso ele fez, mas o amigo aqui estava afastado em sua caretice solidária. “O Nilson cuida dele, pois se amam”. Longos papos e longas horas de amizade eterna. Grande amigo o Nilson. Nossa parceria acho que estava nas conversas inteligentes e desinteressadas. Coisa rara nessa irmandade próxima na distância. No conhecimento sobre o que conversávamos e no respeito de amigo. Mesmo assim ele fechou a porta.  Mas a gente tinha que manter aquela porta aberta. Penitencio-me.

Lembro-me do dia em que ele caminhava vergando a coluna como um velho no seu blazer verde de couro. Lembrei-me de uma frase que me impressionara no livro “As Sandálias do Pescador”. Não era uma frase, mas uma descrição de personagem. “Aquele rosto macilento,etc.”..eu via o personagem no meu amigo. Eu que andara em baixo disse a ele. Vamos ali comigo benzer. No terreiro do meu amigo Mongelli. Ele disse: “Vamos, mas só se for com ele, o chefe do terreiro”. “Tá bem cacique se é assim que vc quer vamos lá.” E ele fez um descarrego e aguentou firme ser molhado benzido e envolto em fumaça. Eu vi logo, vai brigar.

Mas aguentou firme, saiu em pé, leve como uma pluma. Dava pra ver. Tava precisando. Só não quis voltar. Pois queria fast benção e essa não existia. Nunca mais tocamos no assunto. Será que abraçar essa alma carente adianta, perguntava eu a mim mesmo. Mas já lia a resposta naqueles olhos castanhos. “Tá me estranhando rapá”? Aviadou-se? “E depois aquele riso contido “. “Too bem, deixa estar.” Ninguém duvida que o morto seja romântico. Tá no som e nas letras de suas canções.

Elas te pegam no ouvido e se alojam de imediato nas memórias do seu coração. Um rebelde irremediavelmente romântico. E de alma sedutora. Foi nessa súbita constatação que me vi fotografando a capa de seu CD “Veneno Light” onde ele queria ser Gardel. Fotos superexpostas, cabelos na brilhantina até ele gostar da foto final. Tá lá. No seu primeiro retiro ele veio ficar forte, fazer ginástica e ler na casa da Tia Nilda e do Tio Lúdio.

Lembro-me dele na piscina com um monte de livros no banco ao lado onde se via Maiakovski, Manuel Bandeira, Ezra Pound entre muitos. Acho que até esses três eu inventei porque o que me lembro de mais foi do meu livro da peça Roda Viva do Chico Buarque, já esgotado, que ele pegou e nunca mais me devolveu. De vez em quando eu cobrava... Mas, ahahaahah. Geraldo Roca.

Depois a nossa sociedade. Veio um contrato que a Diana pegou e disse pra mim, depois de ler. Você vai ser empregado do Geraldo ou sócio? Eu li e vi que só eu tinha obrigações e falei pra ele. Brigou com a Diana e nossa sociedade morreu não pelo contrato, mas, por duas latas de tinta amarela velha que o pintor que arrumava a casa passou no muro dele. Ele me ligou de madrugada dizendo que o pintor roubou a tinta dele. Eu disse que passou no muro.

Ele respondeu. Não rendeu como na outra pintura. Eu falei a tinta estava vencida por isso o cara usou. Vc me deve duas latas de tinta amarela e nossa sociedade acabou. Depois da neura o riso lógico da sociedade que acabou. Das visitas na sua casa me lembro de uma guarânia inédita em inglês que ele me mostrou e encantou. Linda. Vocês não conhecem. Ali na varanda da casa ele comentava sobre os músicos que ele conhecia. “Fulano é bonzinho, mas falta talento, sicrano é fraquinho né”? 

“Esse cara tá ficando cada dia mais parnasiano”. Eu ria muito. Mas sempre de olho nos três elefantes indianos na cristaleira da sala onde o menorzinho eu queria pra completar meu trio em casa. Vivia planejando roubar, mas não conseguia. Combinamos trilhas e a do Sascha Siemel onde usei o Rio Paraguai ele só me mostrou depois que coloquei a Miska na trilha que ficou bem. Eu tinha prazo. Mas ele me apresentou uma sinfonia linda que se perdeu. Vou recriar.

Assim era meu amigo que se foi deixando uma garrafa de vodca no meu congelador. Tá aqui como uma relíquia da saudade para beber depois.

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